Equipa

Pessoas na Corrente

Filipa Silva, promotora
Com 18 anos conheci bastante a fundo a realidade da produção massificada de alimentos, que mudou para sempre a minha vida. Depois de conhecer uma realidade tão forte e importante, o interesse de saber mais não terminou.. A informação ia-me chegando e não consegui-a ignorá-la. Queria saber sobre como tudo é produzido, como tudo chega às nossas mãos, sobre quais os recursos utilizados, as pessoas envolvidas e as suas condições de vida e trabalho; e ainda o destino dos produtos depois de passar por nós..
Juntamente a isto, desde os tempos de universidade tive a chance de estudar, viver e viajar durante vários meses do ano noutros países. Durante vários meses, tudo o que tinha cabia numa mochila, não havendo espaço para entrar muito mais. Habituei-me a não acumular, a não comprar nem levar comigo aquilo que não era extremamente. Estas experiencias em conjunto com a consciência da sustentabilidade e ética foram-me levando a consumir pouco, pouco mas bem. O consumo consciente, ético, responsável alojou-se em mim e nunca mais me largou.  A vontade de promover estes conceitos, de partilhar informação sobre as boas práticas individuais que podemos ter, e sobre a forma consciente na hora de tomar decisões e de consumir, levou-me ao encontro de membros deste incrível projecto que me convidaram para juntar-me à equipa (que fiz com muita alegria e prazer.!). Acredito que a Corrente vá satisfazer muitas pessoas que nos acompanham nesta missão e estimular outras, a juntar-se nesta viagem.

Miguel Garcia, equipa comunicação
Lembro-me das coisas serem feitas à mão, as roupas costuradas em casa, os móveis arranjados no bairro, a bicicleta antiga reciclada em nova, uma infância artesanal.
Lembro-me de crescer numa cidade e numa sociedade intensamente politizadas, os muros ainda cheios de ideias revolucionárias e palavras de ordem, muitas manifs, muitas conversas dos crescidos sobre a liberdade, sobre o respeito, sobre direitos individuais e equidade social.
Lembro-me das viagens dentro e fora, pequenas ou grandes, e de como tudo mudava, pessoas, cheiros, sons, caminhos, as proporções de tudo diferentes das minhas e ao mesmo tempo uma sensação repetida de familiaridade, afinal o estranho é parecido e o longe também é meu.
Lembro-me dos trinta só chegarem três anos mais tarde, de querer preparar a passagem de filho para pai, assumir a autoria das minhas escolhas e das minhas acções, procurar descobrir a complexidade e a interdependência tantas vezes escondidas nas relações entre as coisas e as pessoas e as ideias.
A ética animal, a resiliência socio-económica, os infindáveis impactos ecológicos, as consequências das escolhas pessoais na saúde e no bem-estar, todas estas dimensões, práticas, conceitos e princípios, toda esta tomada de consciência que as pessoas e as marcas da Corrente reúnem nesta plataforma, aqui e agora, a mim foram precisos mais de 40 anos para lá chegar. Pelo menos é assim que eu me lembro.

Katrin Kaasa, promotora
O meu nome é Katrin. Sou norueguesa mas vivo em Portugal desde criança, ainda com um pé nas florestas mitológicas dos contos de fadas escandinavos. Com a minha avó aprendi tudo o que sei de trabalhos manuais e também a gostar de coisas bonitas, compradas ou recicladas. Nos últimos anos tenho sentido necessidade de transformar o meu consumo. Torná-lo mais selectivo e consciente. Perceber de onde vem a necessidade de ter certas coisas. A Corrente entrou na minha vida através da minha amiga Rosinha, numa das muitas conversas intermináveis sobre tudo aquilo que nos aproxima. Eu andava a investigar marcas portuguesas sustentáveis, e a Rosinha sugeriu que eu entrasse no projecto que estava a desenvolver, a Corrente, na pesquisa e angariação de marcas e produtores. A procura de produtos que não contenham na sua história sofrimento ou exploração humana, animal e ambiental tornou-se uma paixão. Eu já conhecia algumas marcas, mas não sabia que havia tantas em Portugal. A colaboração com a Corrente está a ser também uma aprendizagem a muitos níveis, não só uma reeducação do meu consumo. Descobrir como alguns produtos se encontram intimamente ligados aos ideais e às vidas dos seus produtores, e dar a conhecer essa realidade a todos os que tenham interesse.

Nuno Matias, desenvolvimento tecnológico
Olá. Sou natural de Lisboa mas com raízes na beira baixa, cresci entre os subúrbios da cidade e a vida do campo. Cresci no seio de uma família simples sem grandes posses nem ambições. Com uma tendência natural para a observação das pessoas e seus comportamentos, desde cedo questionei tudo o que via e a razão de ser do mundo. De aprendiz de marceneiro rapidamente dei o salto para a informática onde me especializei e onde aprendi a pôr em contexto humano a tecnologia que usava no meu dia a dia. Onde fui obrigado a destruir a noção ingénua de que a tecnologia iria resolver todos os desafios da humanidade. A minha viagem interior levou-me a perceber que o que faltava era encontrar o propósito certo para aplicar a minha energia e conhecimento. E dessa vontade surgiu a T4HD, que com muito prazer e dedicação se uniu a esta corrente, na esperança de que a possamos fazer crescer e fortalecer. Que a mesma seja um exemplo positivo do que podemos, em conjunto contruir, uma humanidade melhor.

Timi Suveges, promotora
Nasci em Budapeste, na Hungria, em 1990. Cresci numa família de classe média, os meus pais sempre deram a mim e ao meu irmão tudo o que nós quisessemos: brinquedos, roupa, gadgets electrónicos, nunca nos faltou nada. Sempre adorei ir às compras, gastei o meu dinheiro extra em maquilhagem e vestidos bonitos da última moda. Até que um dia apaixonei-me por um rapaz português e um ano depois deixei a minha vida em Budapeste para trás e mudei-me para Portugal, para vivermos juntos.
No primeiro ano não comprei rigorosamente nenhum artigo novo, pois as minhas prioridades mudaram bastante. E nesse ano é que percebi, que realmente nós nem sequer precisamos de tantas coisas para vivermos felizes. Comecei a apreciar mais o que já tinha e pensava dez vezes mais nas minhas novas compras do que antes. Naquela altura comecei a ler e aprofundar mais sobre minimalismo e descobri muita coisa também da sustentabilidade e como manter o equilíbrio nas minhas compras. Mais tarde juntei-me para um projeto que procurava soluções para o desperdício alimentar e outros problemas ambientais e sociais. Aprendi distinguir as marcas com boas práticas das marcas com boa equipa de marketing. E é precisamente este conhecimento que pretendo pôr em prática na Corrente. Porque não temos que ir muito longe – existem marcas com uma responsabilidade ética e ambiental enorme em Portugal, que merecem a nossa atenção.

Cândida Rato, equipa selo consciente + responsável promotoras/es
Desde que me lembro o que entrava em casa tinha uma origem com nome. Até hoje, adoro ir a mercados, feiras e conhecer o que se faz e quem cria o que vejo e consumo.
Em criança os produtos adquiridos eram de marcas portuguesas, alguma roupa feita à mão em casa, a carne era de um talho familiar e sabia quem tinha tratado do animal e onde tinha crescido, o peixe vinha dos mares de Sesimbra… algo que em adulta não consegui manter, percebendo depois o que abdicava de saúde natural, frescura, tradição e nutrição a favor da industrialização. Conheci também o desperdício de recursos deste tipo de produção e o sofrimento infligido, a humanos, planeta e animais. Despedi-me para ir viajar para outros países e realidades. Voltei a Portugal em 2010 reconhecendo, após ter viajado nos 5 continentes, este país como o meu favorito. Repleto de recursos únicos naturais, culturais e humanos, vim com a motivação de os preservar e dar a conhecer.
Após anos a encontrar pessoas e projectos, a escutar e apoiar empreendedores, identifiquei principalmente que não se conheciam uns aos outros e são mulheres e homens multifunções. Depois já em Lisboa percebi que quem queria comprar com qualidade desconhecia o que se produzia e faz em Portugal também.
Então a Corrente vem de uma vontade de poder adquirir o que preciso, conhecendo quem está por detrás, de onde vem e como foi feito, permitindo apoiar a economia familiar e nacional, partilhando práticas e produtos de confiança.

Filipe Moreira Alves, equipa selo consciente
Nasci e cresci numa família da classe média burguesa e no meio de uma abundância que até ao final da adolescência raramente questionei. Tal como muitos dos meus pares nesses anos de aprendizagem, o consumo era sinal de status e a produção intelectual o foco dos meus esforços. Não me lembro de me preocupar de onde vinham aqueles ténis novos, quem tinha feito as minhas calças, quem tinha produzido a minha comida ou reparado a banheira. Não era tanto indiferença mas mais inconsciência e desconhecimento para realidades que me passavam ao lado. Foi nas viagens, na vida vivida fora de Portugal e no contacto com outros círculos e esferas sócio-económicas que despertei para todo um mundo novo para lá da pequena janela do compra-usa-deita fora. Esse era um mundo bem mais vasto, mais complexo e mais difícil de entender. Afinal os ténis tinham sido feitos na Birmânia, por crianças em condições miseráveis, com produtos altamente poluentes, desenhados para durar apenas 2 anos e tendo como destino uma lixeira a céu aberto num qualquer país da África equatorial. Já não eram apenas um ténis da marca X ou Y, eram um símbolo de toda uma economia injusta, indiferente, desigual e insustentável. Podia eu continuar a caminhar neles? E não eram apenas os ténis, a comida, a pasta dos dentes ou as ferramentas. Era tudo o que fazia parte do meu mundo e cujos rótulos, etiquetas e descrições nunca antes tinha prestado atenção. Pesquisar, aprofundar e redesenhar tudo isso tem sido para mim uma viagem de vários anos que me fez questionar toda a minha licenciatura em Economia e seus paradigmas, ter vários debates e discussões, nem sempre amigáveis, com familiares e amigos, e acima de tudo operar transformações consideráveis nos meus comportamentos individuais e no meu papel dentro da sociedade. Produzir e partilhar comida e energia na Biovilla tem sido transformador, construir com as minhas próprias mãos estruturas, brinquedos, ferramentas tem sido libertador, até poder de vez em quando “produzir” música com amigos à volta da fogueira tem sido inspirador. É uma mudança de paradigmas, é uma mudança de vida e é o impulso que me faz ligar à Corrente. Afinal de contas esta é uma rede de produtores, de artesãos e cidadãos, conscientes e responsáveis, com foco na partilha, na aprendizagem mútua e no crescimento conjunto. Vamos a isso!

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